25 outubro 2008

CONTOS DA ALDEIA

O Sacristão Isaías e o Padre Bonifácio
Ninguém por estas redondezas, tinha um coração maior que o mestre alfaiate. Sempre teve a casa cheia de gente, tagarelando, falando das dificuldades da vida, enquanto ele ia talhando um fato, dando uns pontos num casaco ou ajeitando as bainhas de umas calças de surrobeco ou pondo umas brasas no ferro de engomar. Aprendizes da arte de alfaiate tinha-os em diversos escalões etários, onde cada um ia desenvolvendo e demonstrando as suas aptidões, tendo como principal objectivo, a fuga à picareta e à enxada.
Toda a gente gostava dele e ele gostava de toda a gente. Nunca se zangava, fosse com quem fosse, mesmo quando algum freguês já sem paciência, por não lhe ter fato pronto, o tratava mal, vendo jeitos de ter que ir a ser padrinho com o fato velho.
Como o já lendário e velhote sacristão, foi chamado à presença divina, sem ninguém esperar, o senhor padre Bonifácio ficou sem saber, a quem havia de recorrer para o ajudar nas coisas do céu, pois a maioria do seus paroquianos, mourejavam de sol a sol, no campo, lavrando, semeando, ceifando e debulhando, durante uma semana inteira, folgando apenas aos domingos, pela tardinha.
A única pessoa, depois de muito pensar, que ele encontrou, foi o mestre alfaiate.
Logo que teve oportunidade, entrou-lhe pela porta dentro, depois de uma saudação muito amistosa, disse-lhe ao que o ali o levava.
- Mestre alfaiate, como sabe faleceu há poucos dias, o senhor Pires, amigo e antigo sacristão. -Venho convidá-lo para exercer essa função, pois acho que o senhor é a pessoa indicada e das únicas que está quase sempre disponível, trabalha por conta própria, tem um bom feitio e todo o povo acha que é a pessoa indicada, para o desempenho desta função.
- Oh, senhor prior, peço-lhe desculpa, mas não posso aceitar, não tenho jeito para essas coisas e sinto até algumas dificuldades em acompanhar um funeral.
-Vai ver que, é como todas as coisas, uma questão de hábito. E, além disso, a função do sacristão, não é só ir à frente num funeral com a cruz.
- Além das missas e funerais, temos baptizados e casamentos, onde como sabe, somos sempre convidados de honra, para a mesa grave.
-Pois é, mas eu nem sequer sei rezar um padre-nosso ou uma Ave - Maria.
-Isso ensino-lhe eu, em dois tempos, retorquiu o padre serenamente.
Mestre alfaiate, com estas razões, apresentadas pelo senhor prior ficou indeciso, sem saber para que lado havia de tombar.
Como gostava de beber uns copinhos, e o senhor prior também, talvez não fosse má ideia aceitar e tinha a impressão que se iam dar muito bem.
Quando o senhor prior o visitou pela segunda vez e lhe começou a conversa, ainda arranjou alguns argumentos, mas de fraca convicção, acabando por aceitar.
Sempre foi um sacristão desajeitado, não tinha mesmo vocação para tal função. Enganava-se nos procedimentos, as palavras não lhe saíam com a devida fluência, mas tudo lhe era desculpado devido ao seu bom feitio.
Em Dezembro e Janeiro, em todos os lares da aldeia, era um ritual antigo, proceder-se à matança do porco e à cura dos enchidos respectivos.
Chouriços, linguiças morcelas, paio, farinheiras, mouras, cacholeiras,enfiados em varas compridas no fumeiro, por cima do lume de chão, todos se abanavam quando o calor e o fumo lhes chegavam por perto. Era uma boa altura para fazer uma visita, aos paroquianos mais abastados, quer na fé quer no fumeiro, beber uns copinhos, sem ser de caixão à cova e ainda levar qualquer coisa pró caminho. Era Janeiro, já bem tratados e aviados, em casa da senhora Maria dos Santos, esta enquanto se foi despedindo, escolheu do melhor que tinha no fumeiro, cortou a baraça a duas peças de cada qualidade, meteu-as numa típica bolsa de pano e disse ao senhor prior:
- Faça-me um favor senhor padre Bonifácio, leva esta oferta para a festa do Mártir Santo, em Nisa, que é brevemente.
- Como queira D. Maria, agradeceu e retirou-se, com a “malvada” cheia e os “cágados” quentes.
Durante a semana foram saboreando as iguarias, com um tinto da adega, nunca mais se lembraram da festa do Mártir Santo, mas quando o material ia quase de resto, o sacristão lembrou-lhe: -Senhor prior e o Mártir Santo? Eu tenho a certeza que ele não é apreciador de carne de porco, é preciso é que D. Maria não se vá lá confessar.
Na oficina de mestre alfaiate, reunia-se toda a população, em especial nos dias de chuva, quando não era permitido o trabalho do campo. Conversas sobre as coisas mais simples, que se passavam na aldeia, onde qualquer acontecimento servia de tema e de discussão.
-Isto é que vai aí um tempo, chuva e mais chuva, anda meio Pé da Serra constipado, afirmou o “ti” Artur, homem que mourejava, desde que o Sol nascia, até se por, sendo a chuva o único elemento, que lhe proporcionava estar de costas direitas.
Fosse Domingo ou dia Santo, nunca pôs as botas numa taberna.
-Não bebem, afirmou o mestre alfaiate, se bebessem…
E verdade se diga, nem mestre alfaiate, nem o senhor prior, nunca nas suas vidas se constiparam.
- Essa é boa! Disse o Baptista. Olha, o “barbeta”, chega-lhe bem e ainda ontem cá veio o doutor Carlos Gonçalves a vê-lo. Há dois dias que está de cama.
- Mestre alfaiate, tirou o dedal, deixou ficar a agulha a marcar a manga do casaco, olhou os presentes e afirmou categoricamente! -Isso foi ele que ficou algum dia sem beber.
Risada geral, com alguns comentários de caçoada.
José Hilário

10 outubro 2008

19 de Outubro em Nisa

JORNADA DE PROTESTO CONTRA A EXPLORAÇÃO DO URÂNIO
O MUNN - Movimento Urânio em Nisa Não, com a colaboração da CMN - Câmara Municipal de Nisa, ADN – Associação para o Desenvolvimento de Nisa, Nisa.Com – Associação Comercial do Concelho de Nisa, Terra – Associação de Desenvolvimento Rural de Nisa, Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza e Comissão de Ex-trabalhadores da ENU – Empresa Nacional de Urânio, vai promover no próximo dia 19 de Outubro (Domingo), uma JORNADA DE PROTESTO contra a exploração de urânio no Concelho de Nisa.
Assim, entre as 9,30 h e as 11,30 h, no Cine Teatro de Nisa, irá decorrer uma Tribuna Cívica, com a participação da Comissão dos Ex-Trabalhadores da ENU e coordenada pelo CES – Universidade de Coimbra, onde reconhecidos juristas, prestigiados académicos e outras personalidades convidadas efectuarão o balanço e aprovarão conclusões relativamente à exploração de urânio em Portugal, a que se seguirá a Marcha da Indignação até à jazida de urânio situada entre as Freguesias urbanas da Vila de Nisa (Nossa Senhora da Graça e Espírito Santo) e a Freguesia de S. Matias.
Os objectivos de tal Jornada, além da sensibilização das populações locais e limítrofes para os riscos que a eventual exploração de urânio comportará, visam ainda prevenir o País e o Governo, por um lado para o grave impacte que daí ocorrerá, por outro para a incompreensível desconsideração humana que tal decisão pressuporá e, por último, para o facto do modelo de desenvolvimento, investimentos em curso e economia local do Concelho de Nisa e envolvente não serem compatíveis com a exploração de urânio ou quaisquer outras agressões ambientais.

Residentes na freguesia em Excursão a Aveiro

Organizada pela Junta de Freguesia de S. Simão e com o apoio da Câmara Municipal, que cede o autocarro, realiza-se no próximo sábado, dia 11 de Outubro, uma excursão à zona de Aveiro e Ílhavo.
A partida está marcada para as 6,30h no Ribeirinho e a chegada a Aveiro prevista para as 11 horas, havendo um passeio e almoço.
De tarde, a excursão seguirá para Ílhavo para uma visita guiada que incluirá o Museu e loja da fábrica de porcelanas Vista Alegre e capela.
No passeio está previsto ainda uma passagem pela praia de Mira /Figueira da Foz, consoante as condições climatéricas e de horário o permitam.
As pessoas interessadas devem fazer as inscrições até ao dia 8 de Outubro.
in "Jornal de Nisa" - nº 264 - 8/10/08

22 setembro 2008

Os nossos poetas

AS ANDORINHAS

Mal o Inverno tinha acabado
Foram chegando espaçadamente
E, no baixo beiral do meu telhado
Reconstruíram o ninho novamente

Durante a Primavera e o Verão
Ao nascer do Sol e ao Sol-pôr
Foram a orquestra de animação
Dando aos crepúsculos, amor

Com o aproximar do Outono
Vão preparando a viagem
Já não dormem, não têm sono

São migrantes, sem bagagem
Que partem ao romper do dia
Sem um adeus, cheias de alegria.
José Hilário
in "Pinceladas de Poesia e Contos da Aldeia"

19 agosto 2008

José(s) da freguesia em convívio

No dia 14 de Agosto, os José(s) da freguesia de S. Simão, naturais e residentes, reuniram-se num almoço convívio bastante participado e que juntou 17 indivíduos com o nome de José, entre eles dois conhecidos autarcas, o anterior e o actual presidente da Junta, José Miguèns (ti Vara) e José Hilário.
O almoço realizou-se no salão de festas dos Amigos do Pé da Serra e constou de leitão da bairrada, vinho bruto, queijo de Nisa, fruta e café.
Um dia bem passado e de confraternização e que na altura certa terá a devida repetição.

13 agosto 2008

Jornada desportiva e gastronómica


Juntou naturais de Pé da Serra e Monte Claro
O campo de jogos D. Maria Gabriela Vieira, vulgo Campo do Sobreiro, em Nisa, foi cenário, no passado sábado, da primeira parte do encontro desportivo e gastronómico, entre naturais e descendentes das aldeias de Pé da Serra e do Monte Claro.
Às 11 horas e debaixo de um sol abrasador deu-se início às festividades, com o pontapé de saída para o jogo de futebol.
Primeiros minutos muito tácticos. Os do Monte Claro, mesmo contando com um árbitro conhecido, não arriscavam, entretinham o jogo a meio campo, à espera de um golpe de sorte que pudesse resultar em golo, através de um contra-ataque.
Os do Pé da Serra pelo contrário, entraram em campo dispostos a “vingar” as derrotas nos encontros anteriores. Via-se, à vista desarmada que a equipa estava bem treinada, física, técnica e psicologicamente, treino a que não deve ter sido alheio o trabalho desenvolvido por António de Almeida Valente, sempre disposto a incentivar e a oferecer uma “pequenina”. Ao intervalo, já os de S. Simão venciam por 2-0 e tinham esbanjado outras tantas oportunidades.
No segundo tempo, Monte Claro entrou com outra disposição no jogo, com maior determinação e acutilância. Reduziram com um golo, a diferença no marcador, podiam ter chegado ao empate e como é habitual quem não marca, sofre. O tempo restante do encontro foi de sofrimento para as cores de Monte Claro que iam ficando mais negras de cada vez que um azougado extremo-esquerdo, à maneira antiga, metia a segunda, a terceira, a quarta, embalava, ia por aí fora e oferecia golos atrás de golos, assim como quem saboreia amoras, aos companheiros vindos de ao pé da serra.
Quatro a um foi o resultado final a mostrar as diferenças entre uma equipa mais jovem, a do Pé da Serra e outra formada à base de veteranos, bons e esforçados tecnicamente, mas sem pernas para as “diabruras” de dois ou três elementos tecnicistas e com futebol para dar e vender.
Acabado o jogo, debateram-se as virtudes e defeitos dos sistemas tácticos das duas equipas, entre uma e outra mini que o calor não perdoava.
Após o banho retemperador, os desportistas rumaram até uma quinta nas redondezas da vila e sentados ao correr da mesa, protagonizaram novos lances de ataque e defesa, às iguarias gastronómicas regionais.
O borrego, as febras, o convívio fez esquecer as peripécias do jogo anterior. Ali comeu-se e bebeu-se, cantou-se o fado, praticaram-se os jogos tradicionais e, sobretudo, fez-se a apologia da antiga amizade entre os habitantes das duas aldeias.
Digno de registo a forma como alguns jovens, a residirem noutros pontos do país e estimulados pelos pais, comparecem e participam neste convívio que se realiza anualmente.
A iniciativa pretende relembrar as décadas de 50 e 60 do século passado, quando os jogos de futebol entre as duas povoações eram muito mais frequentes e o passatempo preferido nas tardes de domingo.
No encontro deste ano, foi lançada a ideia de alterar a data de realização, fazendo-a incidir com as celebrações da Páscoa.
Para além da amizade e do convívio, aspectos sempre relevantes, há outros que não podem nem devem ser descurados e jogar futebol sob um calor tórrido e a horas impróprias pode transformar a festa num pesadelo.
Isto, se nos lembrarmos que em campo havia jogadores com mais de 50 anos e alguns até com mais de 70.

12 agosto 2008

Os nossos poetas

VENTO AMIGO
Tu! Que cantas alegre nos outeiros
Refrescas no Verão tardes amenas
Pões em movimento os veleiros
Leva para longe as minhas penas

Pões searas com movimentos ligeiros
Moinhos remoendo mágoas serenas
Semeias secos campos hospitaleiros
Afagas papoilas e açucenas

Quando no mar alto me fustigaste
E de repente me abandonaste
Eu sei que existes, mas nunca te vi

Pela noite acordas; madrugada
Numa poesia sempre renovada
Por tudo isto é que eu gosto de ti
José Hilário

27 julho 2008

Pé da Serra e Vinagra em festa

HISTÓRIAS DA CHARNECA

O Chico “Charrua”
A alcunha herdara-a do seu avô materno, por desde de tenra idade ter a fisionomia e feitio do velhote.
Ficou órfão de pai e mãe tinha apenas quatro anitos. Foi para casa de uma tia, onde já labutavam três primos, guardando cabras, porcos ou vacas, ou ajudando em diversos trabalhos sazonais.
Nunca nenhum deles conheceu o que era a ardósia, nem a “menina dos sete olhos”. Quando algum bácoro mais vadio não aparecia ao sol-posto, aí é que a “porca torcia o rabo” ao chegar a casa, ou ia à procura do animal até o encontrar, ou era certo e sabido que trabalhava a vara de marmeleiro e passava por debaixo da mesa.
Os anos foram passando, o “Charrua” foi crescendo, sempre trabalhando no campo, lavrando, semeando, ceifando e debulhando o trigo, colhendo azeitona, mudando de patrão, consoante as necessidades de ambos. O trabalho tinha por ajuste uma semana, desde o nascer do sol de segunda-feira até ao sol-posto de sábado.
Ao Domingo toca a levantar cedo, pegar na enxada e ir até à horta e cavar desalmadamente, a terra para a sementeira das batatas, ou das couves, mal tendo tempo para saborear um naco de pão com morcela, que lhe servia de pequeno almoço e de mata-bicho.
Restava-lhe um pedaço da tarde de Domingo para jogar ao “belho” ou fito e beber uns copitos, poucos, ouvir na telefonia da taberna o relato da bola, depois de pagar o baile pouco sobejava, porque a semanada essa fora entrega à tia no sábado à noite.
Segunda-feira de madrugada toca a levantar cedo, alforges às costas, “fatada” aviada, para toda a semana, e lá por dentro sempre remoendo angústias de quem gostaria de mudar de vida e conhecer a capital, mas estava amarrado de pés e mãos.
Só via uma saída. Quando for às “sortes”, talvez fique apurado, pode ser que o mandem para algum quartel de Lisboa.
O dia das “sortes”, foi o dia mais triste da sua vida, quase toda a rapaziada com fitas vermelhas no chapéu, só ele e o trinca espinhas do Barradas com fitas brancas.
Mas, Lisboa chamava por ele. Sem nunca lá ter ido ou visto qualquer imagem, ele imaginava como eram grandes os prédios, muita gente aos encontrões uns aos outros, talvez mais gente até do que na feira de S. Miguel em Nisa, realizada anualmente no mês de Outubro.
O capataz contava-lhe minuciosamente, todos os passos que dera em tempos, quando por volta de 1929 emigrou para França e dali rumou para a Argentina, outros camaradas rumaram de França para os Estados Unidos, clandestinamente, no porão de ronqueiros navios, mais escondidos que ratos.
Mas, o bom do “Charrua”, pouco ou nada ligava à França ou à Argentina, o seu imaginário estava apenas concentrado na grande capital de Portugal.
Num Domingo à tarde, na taberna do “ti Manel Zé”, apareceu todo apinocado o “rouxinol”, mais velho do que ele três anos, funcionário da Companhia Carris de Lisboa, bem vestido, e com alguma gabarolice à mistura, lá foi enaltecendo a vida em Lisboa e quando se apercebeu da atenção que o “Charrua” lhe dava, então foi um desfiar de histórias, qual delas a mais atractiva.
Como quem não quer a coisa, foi-se abeirando do “rouxinol” e foi-se “embebedando” com as peripécias do antigo companheiro, cada uma delas mais atractiva que a anterior.
A noite estava a chegar não tardava nada e a lua grande e roliça convidava os destemidos a irem em busca de melhor sorte.
Depois de uma breve troca de impressões, o rouxinol disse-lhe com a maior das fanfarronices:
-Há mais dinheiro em qualquer canto de Lisboa, do que em todo o Alentejo.
O bom do “Charrua” nessa noite já não pregou olho. Tem que tomar quanto antes uma decisão e mudar o rumo da sua vida.
No sábado seguinte, depois de receber a jorna informou o capataz, de que não contasse com ele na próxima semana.
Bem tentaram saber para onde iria trabalhar, mas o “Charrua” fechou-se em copas”.
Depois de informar a tia da sua decisão, meteu pés a caminho de Vila Velha de Ródão para apanhar o comboio para Lisboa.
Chegou a Lisboa era quase meio-dia. De facto Lisboa ainda era maior do que ele imaginava. À noite os reclamos luminosos deixaram-no extasiado e à lembrança vinha-lhe sempre a celebre frase: -há mais dinheiro em qualquer canto de Lisboa, do que no Alentejo inteiro.
Acordou na estação do Rossio com a chegada de um comboio. O sol ainda estava longe de se vislumbrar. Deambulou sem destino, nem hora marcada pela estação, quando, sem que alguém vislumbrasse, a um canto lá estava uma nota de mil escudos misturada com papelada.
Olhou, mirou e remirou, passou-lhe uma onda pela cabeça, deu um pontapé na nota e na papelada e sai-lhe espontaneamente: -Só pego ao trabalho amanhã às nove.
José Hilário

12 julho 2008

Histórias da Aldeia

A licença
Era fatal como o destino. Quanto menos ganhavam, mais filhos tinham e a pobreza aumentava. Geralmente, o homem era o único “ganha-pão” do lar. Ele tinha que ter arte e manhas, para angariar mais alguns proventos, para ir sustentando a mulher e um rancho de filhos.
A profissão de pastor, ajustado por um ano, no dia de S. Pedro, único dia de folga dos pastores, e quando mudavam de patrão, era quando se juntavam todos os pastores numa almoçarada, bem regada e que na maior parte das vezes funcionava o cajado de zambujeiro, do Luciano, no “lombo” dos menos capazes, na arte de luta corpo a corpo, ou quando as opiniões dos outros não eram coincidentes com as suas.
Luciano, homem atarracado, fervia em pouca água, quase sempre arranjava sarilhos, à mais pequena dúvida, gerava discussão e terminava numa briga e por diversas vezes teve de “sentar o cu no moucho”.
Era temido pelos camaradas de profissão e pela população em geral.
O seu cajado de zambujeiro tinha fama.
Na malhada, manhã cedo, ainda o Sol dormia a sono solto, toca deixar as mantas da choça, ordenhar o gado, e ala que se faz tarde, visto ter sempre mais qualquer coisa para fazer, consoante a época do ano.
Apanhar pássaros, coelhos, lebres e perdizes, sem ter licença e fora da época de permissão, era para ele como beber água fresca, numa tarde de Julho, numa fonte qualquer, pelos campos do azinhal, ou por ribeiros e vales da freguesia de São Simão.
A Guarda Nacional Republicana, bem o espreitava, mas ele escapava-se como enguia dentro de água, nas mãos de uma criança.
Diz o povo e com razão que a necessidade aguça o engenho.
Em casa havia pobreza, mas também havia alguma riqueza, de iguarias, com tudo o que conseguia arranjar extraordinariamente, mesmo sem fazer horas extraordinárias.
Natural do Coxerro, aldeia do concelho de Vila Velha de Ródão, o senhor Joaquim, mais tarde apelidado de Joaquim das águas, por exercer a profissão de guarda-rios, instalou-se na Vinagra e todos os dias, zelosamente cumpria o seu dever percorrendo a ribeira de Nisa, o ribeiro da Salavessa e todas as linhas de água mais importantes. Ninguém podia mexer uma pedra que fosse, numa linha de água, sem a respectiva licença.
O guarda-rios sabia que o Luciano era permanentemente um transgressor nato, mas deitar-lhe a mão, aí é que a “porca torcia o rabo”.
Dava mil voltas à cabeça, mas não havia maneira de encontrar uma solução. Tentou por diversas vezes apanhá-lo em flagrante, mas o velhaco do Luciano tinha olhos de águia, ouvidos de rato e olfacto de cão perdigueiro.
Os caçadores às rolas, deixaram abandonado, um pequeno esconderijo, junto ao açude do “ti Moleiro”, na ribeira de Nisa, onde as rolas iam beber água no Verão e foi aí que o dedicado Joaquim das águas, o espreitou e esperou durante semanas seguidas.
O bom do Luciano, numa tarde tórrida de Julho, com o gado acarrado, debaixo dos choupos, resolveu ir fazer a sua pescaria, utilizando apenas a sua arte de pescador. Despiu as calças e a camisa, colocando-as à sombra de um pequeno arbusto e na pequena praia de areia grossa, deixou estendido o seu inseparável companheiro, ficando apenas com as ceroulas vestidas, não vendo mal algum na sua quase nudez, pois só se ouvia o zumbido das cigarras, não se vislumbrava alma viva em todo o vale da ribeira. Lá foi mergulhando e debaixo de cada lapa encontrava um barbo.
Após o terceiro mergulho, com um peixe em cada mão, pergunta-lhe o guarda-rios do outro lado da ribeira:
-Ó Luciano, com que então vai boa a pescaria? Mostra-me lá a licença de pesca!
O Luciano, ao mesmo tempo que metia os peixes na saca, responde-lhe secamente:
Olha-a além estendida no areal.
O guarda-rios “deu às de vila-diogo”, mais ligeiro que um sargento de infantaria.
José Hilário